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sexta-feira, 6 de junho de 2008

Um elogio à comida brasileira

Quando eu penso nas coisas brasileiras de que vou ter saudades depois de eu voltar para os Estados Unidos, as primeiras coisas que aparecem na minha mente são pessoas: meu namorado, meus amigos, meus professores. Mas eu sei que posso encontrar um namorado, amigos e professores facilmente em qualquer país (não se preocupe, gente, estou brincando!) e o que não consigo encontrar no mundo inteiro é a comida brasileira. Meu Deus no céu, eu adoro comer aqui: doce, salgado, fresco, apimentado... tem tudo na Bahia.

Adoro ir à Ribeira para tomar um sorvete de amendoim com calda de chocolate e sentar-me ao ar livre olhando os barcos. Quando vou a um churrasco para o aniversário dum amigo, só como pasteis doces de goiabada e brigadeiros porque sou vegetariana, que é ruim para minha saúde mas perfeito para meus gostos porque eu adoro açúcar como se fosse formiga. Também fiquei completamente apaixonada pelo chocolate Sonho de Valsa depois quee recebi um grande ovo de Pascoa dessa marca--e fiquei complteamente enjoada quando eu comi o ovo inteiro em três dias.

Quando eu viajo, um americano sem presunto e suco Del Valle me sustentam. Como pão de queijo como se fosse pipoca, e depois duma noite bêbada de dançar forró, uma pequena esfiha de queijo de Habib's é a café de manhã perfeita. A barraca na Praia Buracão tem o melhor aipim frito em Salvador, com queijo e sal e catsup, e quando estou esperando pelo ônibus em Rio Vermelho para voltar a casa depois dum dia de tomar sol, sempre peço um beiju quente com tomate seco e catupiry de Beiju dos Artistas.

Vou ter tantas saudades da fruta brasileira que é cara demais nos Estados Unidos: nunca mais vou beber suco de carambola, de maracujá, de acerola, de goiaba; não vendem acaí na tigela nas lanchonetes americanas; não tenho o dinheiro suficiente para comprar um abacate toda semana para fazer uma vitamina para o café de manhã. Ai, vou ficar tão triste (e doente, por falta de Vitamina C).


A primeira refeição que eu comi em Salvador foi uma moqueca de legumes num restaurante baiano no Pelourinho, e fiquei muito contente de ver todos os pratos cheios de feijão, arroz, salada, vatapá e molho de pimenta. Adoro o sabor forte de leite de coco com azeite dendé, e o sofrimento da barriga depois de comer uma moqueca completamente vale a pena. Sempre fico animada quando meu pai hospedeiro volta para Salvador do trabalho dele no interior da Bahia, porque ele sempre quer ir a Itapuã para comer acarajé da Cira. Como sou do Sudeste dos Estados Unidos, onde fritamos tudo, adoro umo acarajé bem frito, cheio de vatapá e salada e pimenta, com um bolinho de estudante para sobremesa e uma lata de Guaraná Antárctica estupidamente gelada... que gostoso!

Mas acho que vou ter tantas saudades dessas comidas porque cada merenda, cada prato leva uma lembrança feliz do meu tempo aqui no Brasil. Quando penso em alguma coisa que eu comi aqui, me lembro de novos amigos, duma música bonita, duma noite divertida de dançar, duma praia que parece um paraíso, duma viagem louca... e começo a chorar porque tenho que me despedir de tudo e não quero. Mas pelo menos vou emagrecer um pouco quando eu voltar!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Sempre uma turista

Ontem eu fui para a casa do meu namorado pela primeira vez. Eu já tinha conhecido a mãe e as irmãs dele numa chá de fraldas, mas elas ainda me dão medo. Quero que elas gostem de mim, então eu passei mais do que uma hora me arrumando antes de sair: me vesti com as minhas calças preferidas e uma blusa colorida, e em vez de usar Havianas, eu usei minhas novas sandálias chiques. Ele mora longe demais de mim, em São Rafael-- qüase uma outra cidade!-- e quando cheguei lá, eu estava toda suada. Pior ainda, quando entrei no apartamento dele, todo mundo estava de bermuda e descalço. Meu Deus no céu, eu nunca me visto adequadamente para um evento aqui! A noite anterior eu tinha ido para uma chá de cozinha de calça jeans e Havianas!

Então, a partir do momento em que eu cheguei, me senti burra, e nada que aconteceu depois melhorou isso. A gente sentava no sofá assistindo umDVD de Daniela Mercury e falando do Carnaval, quando meu namorado me olhou e disse "Não fique insultada, mas só têm turistas gordos e chatos no bloco do Chiclete." Eu não fiquei insultada, mas fiquei surpresa: ele me acha uma turista? E depois disso eu fiz o papel de tradutor para entreter a irmã mais velha dele, repetindo todos os nomes da família em inglês para que ela risse das pronunciações americanas. Quando eu falei alguma coisa que ela não entendeu, ela pediu ajuda ao meu namorado, como se eu fosse uma criança com deficiência auditiva. Eu tenho certeza que ela não queria ser antipática ou desagradável, mas eu ainda me senti estúpida demais quando eu sai de lá. Meu namorado viu que eu estava quieta e me perguntou o que foi que estava pensando, mas eu não consegui responder.

No ônibus voltando para casa, quando eu tentava descobrir porque estava triste e calada, eu dei conta de que eu sou uma turista de verdade. Ainda que eu já tenha passado quatro meses aqui em Salvador, ainda que fizesse mais do que um mês que eu saio com meu namorado, eu sou uma turista na terra dele. Nunca vou conseguir entender tudo que ele fala, nunca vou conhecer todas as músicas famosas da Bahia, nunca vou falar sem sotaque americana. E no fim das contas, eu vou voltar para meu país e meu namorado vai ficar aqui. Ele nunca vai conhecer meus pais e minha irmã, nunca vai sair comigo para um show de Brother Ali, nunca vai jantar na minha casa com meus amigos, nunca vai andar de bicicleta quando está nevando, nunca vai estudar na biblioteca até quatro da manhã... tudo isso é minha vida lá que ele nunca vai entender. É tão diferente da realidade dele aqui, e quando eu penso nisso, já me sinto distante dele, mesmo que ele esteja vindo para minha casa agora. Graças a Deus que ainda tenho um mês em Salvador para continuar evitando minha existência turística!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Homem com H

Dia das Mães foi o dia 11 de maio, e como eu não consegui festejar esse feriado com minha mãe verdadeira, eu decidi festejá-lo com minha mãe hospedeira. Queria lhe dar um presente maravilhoso porque ela me mima todo dia: ela cozinha soja para o jantar porque eu sou vegetariana, comprou uma camiseta indiana para mim porque achou que tinha minha cara, sempre deixa um doce gostoso na mesa para mim, e todo fim de semana me leva por um bairro da cidade para conhecer Salvador melhor. Então, eu queria que o Dia das Mães fosse perfeito, porque se alguém merece um dia perfeito, é ela. Mas o que é que poderia lhe dar? Não tinha nenhuma idéia.

Todo domingo minha mãe hospedeira compra o jornal A Tarde e eu leio só o "Caderno2." Um mês atrás eu lia esse jornal quando eu vi um pequeno artigo sobre um show de Ney Matogrosso que haveria os dias 9 e 10 de maio, no mesmo fim de semana do Dia das Mães. Foi exatamente o que eu procurava. Mas... podia ser que minha mãe hospedeira não gostasse do jeito de Ney. Ele é tão... sexual... e ela é tão inocente e doce e... tão mãe. Não sei, mas na minha experiência, "mãe" e "sexual" não são sinônimos. Mas como eu já tinha comprado os ingressos, não havia nada para fazer—minha mãe e eu fomos para o show de Ney.

Sentávamos no Teatro Castro Alves, vestidas toda chiques e olhando o público. A primeira coisa que me surpreendeu foi sua idade: eu era a pessoa mais jovem no teatro! A boa parte das pessoas tinha mais do que cinqüenta anos, careca ou com cabelos brancos e usando óculos. A segunda coisa que me surpreendeu foi o número de pessoas heterossexuais: casais casados constituíram a maioria do público! Só vi dois casais gays, que num show de um artista gay numa cidade que é o berço do movimento GLBTT no Brasil, foi algo estranho. Mas mais surpresas estavam por vir...

As cortinas abriram e lá no palco tinha Ney Matogrosso, deitado num sofá como uma rainha egípcia. Ele usava roupa metálica e apertadíssima, com colar e mini-saia e um chapéu brilhante que parecia cabelo curto feminino. E de não sei onde veio essa voz maravilhosa de uma mulher sexy que já viveu muitas coisas e que já tem muitas histórias para contar, e o show começou. Ney dançou o tempo todo, mostrando a sua fonte inesgotável de energia e poder manipulador: às vezes ele pareceu com uma estrela burlesque dos anos 50, outras vezes ele me lembrou mais de uma feminista militante mostrando o microfone como se fosse um pênis. A cada duas ou três canções ele mudava de roupa sem sair do palco, provocando o público com um striptease até que ele ficou quase nu e mostrando o seu corpo musculoso que parece trinta anos mais jovem do que é.

Mas a maior surpresa foi a resposta do público às provocações de Ney: ele adorou! Todo mundo gritou e cantou e bateu palmas quando ele cantava e tirava a roupa, e quando ele saiu do palco para flertar com pessoas no público, todo mundo ficou maluco! Ney apaixonou homens e mulheres até que o espaço formal do teatro mudou e todo mundo saiu dos seus assentos e ficou de pé em frente ao palco, tentando tocá-lo e tirar fotos dele. Foi uma loucura!

O jeito dele é quase impossível de definir, mas acho que o forte magnetismo de Ney Matogrosso vem de sua habilidade de brincar com e manipular as definições de homem e mulher, heterossexual e homossexual, velho e jovem. A única coisa que eu sei com certeza é que ele conseguiu provocar e atrair a mim e a minha mãe hospedeira—e que foi um Dia das Mães inesquecível.
"Quando eu estava pra nascer
De vez em quando eu ouvia
Eu ouvia mãe dizer
Ai meu Deus como eu queria
Que essa cabra fosse homem
Cabra macho pra danar
Ah! Mamãe aqui estou eu
Mamãe aqui estou eu
Sou homem com H
como sou estribilho
Eu sou homem com
E com H sou muito homem
Se você quer duvidar
Olhe bem pelo meu nome
Já tô quase namorando
Namorando pra casar
Ah! Maria diz que eu sou
Maria diz que eu sou
Sou homem com H" --Ney Matogrosso

terça-feira, 13 de maio de 2008

Tudo cinza

Para começar, eu quero que todo mundo saiba que esse blog não é nada concreto ou bem-definido--é mais algo em que tenho pensado porque ainda há muitas coisas do Brasil que eu não entendo. Eu escrevi esse blog pensando nas possíveis críticas que vou receber, e que eu quero receber. Queria criar um pouco de controvérsia com esse blog para ver as respostas, para ver se alguém sabe por que a corrupção,o atraso nas aulas e a traição acontecem com tanta freqüência aqui. Não quer dizer que essas coisas não acontecem nos EUA, nem queria falar duma posição de superioridade sobre essa questão, e por isso eu vou falar um pouco sobre meus próprios atos irresponsáveis. Como eu estou aqui em Salvador, eu sou uma participante ativa da vida brasileira, então eu sou tão culpada quanto as outras pessoas de agir sem respeito às regras aqui. Mas basta dessa introdução ao assunto, e vamos ao que interessa:

Recentemente, alguns escândalos aconteceram na esfera pública do Brasil, como a traição de Ronaldo com as prostitutas e a viagem européia da sogra de Cid Gomes. Mas também aconteceram alguns pequenos escândalos na minha vida pessoal na semana passada, como o dia em que faltei uma aula para beber uma cerveja com um amigo, ou quando eu esqueci de fazer uma tarefa para a aula de Português, ou quando ouvi falar dum rapaz (que tem uma namorada de seis anos) que fica com uma menina diferente cada semana.

E depois de todos esses escândalos, ninguém vai para a cadeia, ninguém fracassa na aula, e ninguém perde a namorada--porque não têm um sistema rígido de conseqüências aqui no Brasil. Com certeza existem conseqüências em alguns casos: os pais de Isabella provavelmente vão para a prisão, o personagem de Guilherme na novela "Beleza Pura" perdeu o emprego depois do acidente de helicóptero, e eu peguei uma infecção no dedo com uma manicure ruim. Mas tem uma séria falta de rigidez na aplicação das regras e da lei nesse país. Não existe um sistema de castigos que seja aplicado com igualdade e rigidez a todos os que fazem coisas erradas. Então, às vezes parece que todo mundo tem a liberdade de trair os namorados e chegar atrasado às aulas e roubar um pouco de dinheiro do povo ou do governo. A corrupção é tão comum que ainda mesmo os funcionários dos postos de saúde têm que roubar instrumentos médicos e dinheiro para que o posto fique funcionando, e muitos dos brasileiros jovens que eu conheço podem ser chamados safados pela maneira em que eles brincam com as namoradas.

O jogo (falando metaforicamente) do governo, da aula, e do namoro não tem regras claras-- tudo parece cinza. Então, cadê o preto e o branco de certo e errado nesse jogo? Como fala o conhecido soterpolitano Caetano Veloso no poema “Americanos,”
Para os americanos branco é branco, preto é preto...
Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime
E dançamos com uma graça cujo segredo
Nem eu mesmo sei
Entre a delícia e a desgraça
Entre o monstruoso e o sublime...
Americanos sentem que algo se perdeu
Algo se quebrou, está se quebrando.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O que me incomoda em "Cabeça do brasileiro"

Lemos a introdução ao livro "A cabeça do brasileiro" para nossa aula de Português, e o autor Alberto Carlos Almeida diz muitas coisas com as quais tenho problemas já na primeira página. Ele pretende vincular uma pesquisa recente da população brasileira com o trabalho de Roberto DaMatta em criar generalizações sobre "a cabeça do brasileiro." Mas ele só conseguiu criar pressuposições erradas sobre o que é ser brasileiro.

Ele falou que "é grande a parcela da população que compartilha uma visão do mundo arcaica" mas essa não é uma característica exclusiva do Brasil. Eu sou do Sul dos Estados Unidos, e eu acho que eu sei algo do arcaísmo. Muita gente lá ainda tem muita preconceito contra todos os tipos de diferença, ainda sobrevive na agricultura local, ainda mora isoladamente na floresta, ainda vota pelo partido republicano... parece que Almeida nunca ouviu falar de Eric Rudolph ou de Ku Klux Klan. Esse é arcaísmo verdadeiro. E como Almeida diz que tem dois Brasis, o arcaico e o moderno, também tem dois Estados Unidos. Esse fenômeno acontece em qualquer país que abra os seus braços ao capitalismo moderno, criando um mundo rico e um outro mundo pobre no mesmo lugar.

Mas Almeida esquece quase completamente do papel que o dinheiro representa na mentalidade e "modernidade" duma pessoa. Ele se recusa a discutir a óbvia correlação entre a renda e o nível da educação que um brasileiro tem: quanto mais dinheiro tiver uma família, mais estudos os filhos dessa família vão ter. E é minha opinião que esse fato (ou essa falta) da riqueza vai ter uma influência muito mais forte nas crenças duma pessoa do que a educação. Aqui no Brasil o dinheiro e a educação são tão vinculados numa maneira tão complicada que não se pode esquecer de um ou de outro --eles sempre vão juntos. O "abismo" de que Almeida fala que existe entre brasileiros não depende só dos livros que leram nem dos professores que lhes ensinaram--depende também de em que bairro moraram e de quantos impostos eles tiveram que pagar. O dinheiro determina o acesso pessoal às coisas, aos lugares, às outras pessoas, que também determina acesso a idéias, modelos de comportamento, e práticas que criam valores.

Mas meu maior problema com esse estudo é que a pesquisa social só mostra como os brasileiros falam e não como eles agem. Não tem certeza que os entrevistados façam os papeis que eles criam das palavras deles. Pode ser que essa pesquisa não mostre a verdadeira realidade do Brasil, e pelo menos é obvio que Almeida fracassou em fazer um desenho completo do país dele.

segunda-feira, 24 de março de 2008

O que eu sabia do Brasil...

Antes do dia 14 de janeiro, eu só sabia isso do Brasil:

-Os pobres adoram Lula; os outros não gostam dele.
-Gilberto Gil e Caetano Veloso tocam música muito boa no estilo do "Tropicalismo."
-Quando Pelé e Ronaldinho jogam futebol, todo mundo grita "Golllllllll!!!!!!!!"
-O Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra e Benedita da Silva estão tentando mudar a poderosa desigualdade que existe hoje na sociedade brasileira.
-Os filmes "Ônius 174" e "Cidade de Deus" mostram a aterradora realidade do mundo das drogas e dos bandos no Rio de Janeiro.
-No momento em que eu escrevo isso, a floresta amazônica está sendo destruída.
-O Carnaval é uma loucura.
-O samba é difícil de aprender.

Eu nunca viajo. Essa é minha primeira vez fora dos Estados Unidos, e faz só um semestre que eu falo português. Então, eu estou aprendendo mais a cada minuto que estou aqui. Já vi muitas coisas impresionantes nos dois meses que estou aqui, coisas que mudam o que eu acho do Brasil, e também o que acho de eu mesma. Aqui eu vou tentar analisar essas experiências de uma maneira honesta durante nos meses que vêm.