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terça-feira, 3 de junho de 2008

“Traga o Sal, Por Favor”

Na minha casa, quem é que lava a roupa, às vezes à mão, que cozinha todos os almoços e jantares, que entrega a comida para a mesa como uma garçonete, que lava a louça, que passa a roupa, que limpa o banheiro, os quartos e a cozinha, que lava o chão... ? Não é minha “mãe” hospedeira ou meu “pai” hospedeiro. É Clarissa, nossa empregada doméstica.

Depois de estar no Brasil por quase cinco meses, a coisa a qual eu ainda não consigo me adaptar é a cultura de ser servido. Nos Estados Unidos, é extremamente raro ver uma empregada doméstica trabalhando na casa de uma família. Em geral, a mãe da família é a líder em termos de trabalho de casa, e ela divide as tarefas diferentes entre os membros da família. Aqui, ter uma empregada doméstica é muito normal para famílias de classe média. Não é visto como um signo de riqueza extrema como costuma acontecer muitas vezes nos Estados Unidos. Aqui, ter uma pessoa ajudando na casa é visto como ordinário e necessário.

No Brasil, existe a idéia de que é apropriado para algumas mulheres fazer algumas coisas, e outras mulheres, outras coisas. Uma ideologia brasileira que tem raízes nos tempos de escravidão é que fazer o trabalho de casa não é apropriado para a mulher de casa, antigamente a esposa branca do senhor da fazenda. O limpar e lavar eram vistos como trabalho designado para uma mulher de fora, antigamente a escrava preta ou parda, e hoje em dia em Salvador, a empregada doméstica preta ou parda.

Muitas vezes, durante o dia-a-dia no meu apartamento, a situação à frente de meus olhos parece ser uma cena dos tempos da escravidão. Uma família branca sentada na mesa, comendo comida deliciosa, mas não feita por nenhuma pessoa que está comendo. É feita pela empregada afro-descendente. A cada cinco minutos, alguém decide que precisa de alguma coisa da cozinha, mas não levanta para pegar, claro que não. É o dever de Clarissa. “Ô Clarissa, traga o sal,” “Ô Clarissa, traga o suco,” e ela vem da cozinha, trazendo a coisa pedida à mesa. A melhor cena é quando Clarissa está cozinhando o almoço e minha mãe hospedeira, sentada e assistindo televisão, decide que ela quer comer. “Clarissa, eu realmente estou com fome.” A resposta: “Está quase pronto, senhora,” e ela continua cozinhando.

Às vezes, me sinto frustrada ao observar este relacionamento entre donos de casa e mulher na posição de servidão. Eu sei que ela é paga, mas para mim, não resolve o fato ela está servindo as pessoas da família cada dia, e essencialmente realizando as mesmas tarefas feitas por escravas domésticas, um século e vinte anos atrás.

Eu acho uma coisa alarmante que muitas pessoas brasileiras, especialmente homens nunca aprendem cozinhar ou limpar porque, quando estão morando com a família, a mãe e a empregada fazem estas coisas, e quando se casam e têm casa própria, a esposa ou a empregada fazem. Nos Estados Unidos, um das qualidades mais valorizadas é a independência e a capacidade de estabelecer uma vida própria. Eu sempre tive orgulho de que eu podia fazer quase qualquer coisa para mim mesma. Minha mãe me ensinou a lavar minhas roupas quando eu tinha doze ou treze anos, e eu tenho estado lavando minha roupa para mim mesma desde aquele ano. Eu sei cozinhar se eu precisar cozinhar. Eu sei limpar se eu precisar limpar. Aqui, quando eu falo com pessoas brasileiras sobre estas coisas, ficam surpreendidas que uma pessoa de minha idade já sabe como cuidar de si mesma e fazer trabalho de casa, e não tem uma empregada doméstica que faz estas tarefas. Eu já aprendi que a cultura de ser servido é uma parte importante da cultura brasileira, mas isso é uma coisa à qual eu vou sempre ter dificuldade me adaptar.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

As Portas da Percepção

“Vocês têm que se acostumar com o fato de que a maioria das famílias com as quais vocês vão morar são brancas, e que essas famílias vão ter uma empregada que é negra,” falou o diretor do nosso programa quando chegamos aqui em Salvador.
“É mesmo?” perguntou Aristóteles do fundo da sala.
“Você veio de onde? Eu achava que você não voltaria mais, sobretudo depois da vergonha que você tem causado nos últimos quatro centos anos aqui. Vá embora, vá!” o diretor gritou para Aristóteles.
“Se você e o resto da sociedade aqui no Brasil quiserem ir reproduzindo toda a bobagem que eu produzi faz mais que dois mil anos, fiquem a vontade. Mas todo o mundo já sabe que o fundamento teórico de meus ensaios sobre a escravidão é bem fraco, e todas as teorias das ciências físicas, naturais, e sociais já arrasaram a besteira que eu usei para justificar a escravidão e o uso de empregados no lar doméstico. Agora a gente sabe que não existe uma raça ou um tipo de pessoa que é melhor que as outras para a mão-de-obra física, mas que a sociedade vai criando e recriando o tipo de corpo que é usado para as tarefas manuais. A gente também não aceita mais a idéia de um sistema que usa a cor da pele como maneira de diferenciar as pessoas. Porém, parece que você quer ensinar esses estudantes que esses erros não têm nada demais, então vá-la!” E aí, ele desapareceu.
“Desculpe, gente, eu estava dizendo o quê?
De repente, Immanuel Kant apareceu na porta.
“Quem convidou você?” o diretor perguntou.
“A luta dos últimos quatro mil anos dos escravos, dos explorados, e dos oprimidos me convidaram. Aqui no Brasil, vocês estão continuando a criar esses grupos de pessoas da pior maneira possível. Vocês não entendem o princípio mais básico da organização dos seres humanos. É o princípio que deve ser encontrado no centro de toda relação pessoal, e que deve governar a sociedade. Esse princípio diz que os humanos nunca podem ser os meios para um fim. Ou seja, não se pode usar os humanos só com a intenção de aumentar os lucros, eficiência, ou mesmo a felicidade de um outro humano. Em lugar disso, os humanos são os fins mesmos de uma ação. A relação de duas pessoas leva em conta a humanidade de cada pessoa, a qual exige um direito universal de ser considerada a última meta em todo negócio.”
“Desculpe, amigo, pode fechar a porta aí?” pediu o diretor. “Tem um vento particularmente forte hoje.”
Contudo, antes de ele poder começar a falar de novo, Karl Marx entrou pela janela e virou-se para a gente.
“Oi pessoal,” ele começou. “Eu tenho passado os últimos quinhentos anos observando as relações humanas dentro do Brasil. Que desordem! A maior parte das famílias aqui de classe media tem uma empregada. Essa empregada tem que viajar todo dia do bairro dela para um bairro no centro da cidade, e essa viagem é normalmente muito longa. Na casa do empregador, ela tem um papel bem desfavorável. Ela cozinha, mas do jeito que a dona da casa quiser. É a mesma coisa com a limpeza e com as outras tarefas na casa. Todo o trabalho que ela faz é para o empregador e não faz nenhuma diferença na vida dela a não ser pela satisfação do empregador. Além disso, ela trabalha num lugar desvinculado de todas as pessoas na comunidade dela. Portanto, qual é o resultado de todas essas circunstancias? A empregada fica alienada da comunidade dela, o trabalho dela, e finalmente de si mesma. Por isso, esse sistema faz com que todos os donos de capital tirem a humanidade da força de trabalho e alienem eles de todo aspecto da vida delas. Para os trabalhadores ganharem a humanidade deles de novo, eles têm que conseguir propriedade sobre o próprio trabalho deles.”
“Karl, você é tão chato. Gente, eu...” o diretor começou de novo. Mas eu não estava escutando. Eu estava indo buscar acarajé com Karl, Immanuel, e Aristóteles e escutando eles enquanto eu pensava mais sobre o choque de cultura que me esperava todo dia na porta da casa da minha família de classe média alta.

domingo, 1 de junho de 2008

O Choque Cultural

Kalvero Oberg foi um antropólogo do século XX, mais conhecido pela identificação das fases de “choque cultural.” Mas, que é o choque cultural? Nascendo num país, você é criado com hábitos e opiniões que você realmente nem percebe. Quando chegar num outro país, a pessoa começa a descobrir que nem todo o mundo foi criado com os mesmos hábitos, comidas, costumes, estações, vocabulário, etc. Oberg identificou cinco fases deste processo de descobrimento, os quais o estudante de intercâmbio geralmente vive sem saber o “porquê” dos sentimentos que passam pela cabeça dela.

As fases:

Primeira fase: “the honeymoon phase” o a “fase de lua de mel”- Chegando no aeroporto em Salvador, eu sabia que Brasil ia ser o lugar perfeito para mim. Nunca esquecerei a viagem no táxi do aeroporto até Ondina, onde passaríamos os primeiros dias. Tudo era diferente, tropical, lindo, e nada poderia ter aparecido feio, sujo, ou bagunçado. Sabíamos que o motorista de táxi ia tentar cobrar a mais, já nós avisaram disso antes de chegar no país, então não íamos pagar nem a mais nem a menos do que deve ser. Sabíamos que o Brasil “é muito perigoso” e que não seria “boa idéia” sair do hotel as primeiras noites. Sabíamos que a família que nos adotou ia ser perfeita também. O local era lindo, duas irmãs, um pai, uma mãe, algo que nunca vivei na minha vida: uma família completa, um apartamento grande, chique, no centro duma cidade. Tinha empregada, mas ela parecia muito feliz, quase uma parte da família, ainda que não almoçasse com a gente e ficasse de pé servindo até a hora de ela almoçar na cozinha, sozinha. Mas isso era “normal” no Brasil, já me disseram que ia ser assim. Tudo ia ser perfeito.

Segunda fase: “Rejection” ou “Rejeição”- Os ônibus nesta cidade são impossíveis de aprender a usar. Minha mãe brasileira me falou que tinha que pegar ônibus na Reitoria da UFBA para chegar à minha aula em Ondina, mas ela só anda de carro e não sabe nada de ônibus, a família inteira anda de carro. Eu esperei no ponto, e com o melhor português que eu pude falar, perguntei mil e poucas vezes,

-você passa na Ufiba?

-onde??????

-Ufiba?

-ONDE?

-ufiba.

- AHHHHHHH, UFBA, não, você tem que esperar no outro ponto.

Fui ao outro ponto, e o processo continuou, cada motorista falou “outro ponto”. Começou a chover (chegamos aqui no “inverno”- o que significa somente uma coisa em Salvador: chuva). Molhada, frustrada, e chegando no mesmo ponto onde comecei quase uma hora antes, peguei Vilas do Atlântico, e cheguei ao campus cinco minutos depois.

Ainda tenho dias aqui como aquele, e só posso falar uma coisa, que “este dia não vai funcionar.”

Terceira fase: “Regression” ou “Regressão”- Chegando em casa depois do fiasco com o ônibus, não sabia o que fazer. Não tinha muitos amigos, não deu para sair. A família ficava nos quartos deles, e eu não queria invadir a privacidade de ninguém. Ligue a televisão e achei o MTV Brasil, e “Punk´d” estava passando naquela hora, em inglês com legendas em português, as quais eu podia ignorar. Foi quinta-feira, e dia que a família comia Mcdonald em casa, uma tradição que eu nunca cheguei a entender. Minha irmã brasileira passou no meu quarto só para deixar o hambúrguer e voltou para o quarto dela. Ai eu fiquei no quarto, comendo Mcdonald e assistindo “Punk´d” em inglês, confundida porque eu estava estudando exatamente no Brasil.

Quarta fase: “Recovery” ou “Recuperação”- Eu não gosto de Mcdonald, realmente nunca o como nos Estados Unidos, e prefiro muito mais ao acarajé. Não moro mais com aquela família, e adoro a carioca que me adotou este semestre, a qual prefere andar pela casa só de calçinha, que figura! Adoro os dias que “não funcionam,” porque eu sei que estou em Salvador quando passo um dia maluco procurando um banco que não tem fila enorme, ou uma aula que ao final foi cancelada, ou um ônibus que me levaria ao local errado, ou quando saio de casa só com quatro reis e pego ônibus errado e quando chego ao Iguatemi, chego a descobrir que não posso tirar dinheiro com o cartão porque foi bloqueado pois os números foram roubados, e não tenho mais dinheiro para pegar ônibus. Aí, eu ligo para minha amiga para me buscar.

Tem dias aqui que eu nunca esquecerei, nem mudaria para nada.

Quinta fase: “Reverse Culture Shock” ou “Choque cultural ao voltar”- O Brasil me ensinou muito sobre a minha própria cultura. Morar num outro país é quase como viver com um espelho sempre colocado na frente da sua cara; você pode ajustar como você se comporta, mas sempre será diferente. A coisa é que já me acostumei como funcionar nesta sociedade, nesta língua, nesta roupa, com este dinheiro, comendo esta comida. Aprendi a beijar duas vezes na cara quando conhecer alguém, a entrar no ônibus na porta de trás e descer na da frente, a não tocar a comida com as mãos nem comer enquanto andar pela rua, e vai ser difícil voltar a tudo que eu conhecia antes do Brasil. Mas isto é assunto para o próximo blog: “de quê eu vou ter saudades”.