sexta-feira, 30 de maio de 2008

O choque cultural

Para mim, o “choque cultural” é um termo meio enganoso. A frase sugere uma batida de carro: um acontecimento instantâneo que deixa as vítimas confusas, perdidas e inquietantes. Durante cinco meses aqui no Brasil, minha própria perturbação surgiu lentamente, como uma série de realizações que rasgaram presunções tão íntimas que eu costumava pensar que elas faziam parte do meu próprio corpo. Será que qualquer pessoa, quando chega num país, sofre um golpe inicial da mesma maneira, independentemente se ela pretende ficar por três dias ou um ano? É claro que não. As primeiras reações, que no caso do turista vão ser principalmente reações ao que vê, são mascaradas pelo entusiasmo dele. É possível ser turista sem falar nenhuma palavra da língua do país. É somente a significativa interação cotidiana com os habitantes locais que vai provocar a perturbação a que eu estou me referindo.

Depois de algumas semanas, esse americano que resolveu se isolar do conhecido e estudar num país estrangeiro já tem alguns amigos com quem passeia e sai de noite. Armado com algumas gírias mal entendidas que a sua professora de português lhe ensinou, demora pouco tempo para ele acreditar que está falando “direitinho”. Um dia, sem importância nenhuma à parte de algum acontecimento que lhe deixa um pouco triste, um amigo pergunta “Tudo bem?”

Ele responda em voz baixa “Não...”

A cara apavorada do amigo convence o protagonista a corrigir a sua resposta anterior.

Na próxima semana há um feriado, e o estudante resolve ir pra praia. Conhece vários brasileiros jogando bola e depois do jogo eles tomam uma cerveja juntos e trocam os números dos celulares, para passear no final da semana que vem. Eles nunca ligam pro estrangeiro, mesmo dizendo que sim, ligariam. Será que ele não entendeu?

Levado para uma festa constrangedoramente chique pela sua mãe hospedeira, o estrangeiro não conhece ninguém e não tem nada a dizer. A sua mãe e uma amiga dela se aproximam dele, “Vem cá para conhecer o meu americano...”.

“Nice to meet-ch choo.”

“Um prazer”, o americano consegue falar.

“É muito tímido. Você é tímido, não é?” pergunta a mãe hospedeira, sorridente.

“Sou não.”

“Ele é tímido. Só fala comi-“

A amiga interrompeu-a, “Mas, ele sabe português?”

Ele não sabia como responder.

3 comentários:

Katie disse...

Drake, conheço bem essa situação. É muito, mas MUITO frustrante quando as pessoas chegarem para você já supondo coisas sobre você sem até te conhecer! Especialmente esse negócio de "ser tímido" -- é bem relativo, né? E caso você seja tímido, por alguma razão isso significa que você não fala português! Caramba, é muito difícil se manifestar sob essas condições...

Rhea disse...

Parece que muitos nós já enfrentamos a mesma situação. Esse negócio de ser "tímido" como sinônimo de "não estã conversando muito comigo nesse instante" é bastante comum, não é? Tem uma pessoa que está morando na minha casa com quem eu não me dou muito bem, aí ele concluiu que simplesmente "sou tímida," o qual eu nunca me achei. Isso faz com que eu pense nos estudantes de intercâmbio que eu conheci na minha faculdade....será que eu achei alguns dele tímidos quando na realidade, não eram? Mas, o que me deixou chocada dessa situação foi que aquele homem me comentasse "como sou"....como se soubesse melhor do que eu!

Kyle disse...

Drake,
Depois de morar em Nova Iorque, é muito dificil ajustar à vida em Salvador e ter um sotaque de fora. Em NY, eu não posso lembrar a ultima vez que eu fui a um restuarante e tive um moço que falava inglês como primeira lingua. Quando eu ia a escola de metro, menos que a metade das pessoas dentro do carro estavam falando inglês. Quando uma pessoa tem um sotaque, é possivel que essa pessoa passou a vida inteira em NY, mais no Brighton Beach ou em vários outros bairros onde inglês e a terceira ou quarta lingua mais falada. Mas a maior parte das pessoas que eu conheci aqui percebem imediatemente que eu tenho um sotaque (provavelmente bem forte, né?) e decidem que eu não sei falar mais que "tudo bem." Depois de morar aqui seis meses, fica um pouco chato, não?